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Radiografia Estrutural da Crise Brasileira

Econ. Gilmar Mendes Lourenço

A cesta de indicadores conjunturais, montada com apoio de investigações mensais, preparadas por organismos oficiais, como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Banco Central (BC), entidades de classe, como as Confederações Nacionais da Indústria (CNI) e do Comércio (CNC), e outras organizações como Serasa Experian, Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) e Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), coadjuvadas pelo Fundo Monetário Internacional e Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), vêm evidenciando, de forma incontestável, a marcha recessiva desenhada pela economia brasileira, a partir do segundo trimestre de 2014.

De fato, o acompanhamento das estatísticas de produto interno bruto (PIB); nível de atividade; produção, emprego, utilização de capacidade e vendas industriais; volume de comercialização do varejo; faturamento dos serviços; mercado de trabalho;endividamento e inadimplência dos consumidores, volume de pedidos de liquidações extrajudiciais de empresas e produção e comercialização, por aquelas instituições, propicia registrar a maior e mais longa contração econômica da história do País.

Ainda assim, representantes do ex-governo Dilma Rousseff e algumas peças dos meios especializados tem,ferrenha e repetidamente, defendido a necessidade de cautela na interpretação dos resultados daquelas sondagens, essencialmente preliminares, por refletirem comportamentos, estratégias e táticas dos agentes em um horizonte temporal de curto prazo, não permitindo a observação de relevantes e profundas mudanças, que estariam acontecendo na matriz produtiva, capitaneadas pelas corporações atuantes no território nacional.

No entanto, em contraste com essa visão pouco aderente à realidade –cuja interpretação, nos tempos atuais, dispensaria o emprego de referências numéricas para a aferição da dimensão do panorama de pauperização -, as estatísticas estruturais do sistema de transações da nação, que começam a ser divulgadas, especialmente pelo IBGE, oportunizam a complementação do quebra cabeças da instabilidade brasileira.

Mais do que isso, as informações dos inquéritos anuais da entidade oficial de estatística do País permitem estabelecer contornos definitivos ao quadro descendente do ciclo de negócios, gestado ainda em 2014, que, na ocasião, foi rigorosamente ignorado e encoberto pelas autoridades do palácio do planalto, na perspectiva de obtenção de aprovação popular e conquista do segundo mandato pela então presidente, no pleito eleitoral.

Por esse exame, conforme a Pesquisa Anual da Indústria da Construção (PAIC), do IBGE, que apura estatísticas econômicas e financeiras do segmento de construção empresarial, englobando edifícios, infraestrutura e serviços especializados, o valor das incorporações, obras e serviços, a receita operacional líquida e o valor adicionado, deflacionados pelo índice nacional de preços ao consumidor amplo (IPCA), do IBGE, acusaram decréscimo de -0,8%, -1,3% e -1,8%, respectivamente, em 2014, traduzindo a falência do setor público e a contração da confiança da iniciativa privada.

Em paralelo,a Pesquisa Industrial – Empresa, também aplicada pelo IBGE, revelou diminuição – depois de retirada a influência inflacionária, por intermédio do índice de preços ao produtor amplo (IPA), calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) – do valor da transformação industrial (VTI), das receitas líquidas e dos investimentos do setor de -7,3%, -5,5% e -9,4%, respectivamente, no exercício de 2014, reproduzindo a constituição de um cenário depressivo no pedaço mais dinâmico do tecido econômico, em razão de seus impactos multiplicadores para frente e para trás.

Já, de acordo com o Cadastro Central de Empresas (Cempre), do IBGE, o número de empresas ativas no País declinou de 5.392.234, em 2013, para 5.103.357, em 2014, ou -5,4%, representando a primeira queda desde 2007, quando os levantamentos e acompanhamentos começaram a ser realizados. Em idêntica tendência, o número de sócios e proprietários de companhias recuou -3,9%, passando de 7.276.102, em 2013, para 6.992.281, em 2014.

Convém advertir que esses eventos estruturais desanimadores constituem apenas o primeiro episódio da série “a economia brasileira rumo ao fundo do poço”, lançada em fins de 2013. Como há fortes indícios de existência de cenas fortes, centradas em sofrimento e violência, nas produções referentes a 2015 e 2016, recomenda-se,como opção aos mais sensíveis e passivos, a película “a eterna crise internacional”.

Tanto é assim que, segundo cálculos da OCDE, o Brasil deve experimentar o pior desempenho na geração de empregos, em 2016, no confronto com outras 43 nações pesquisadas. A queda líquida (contratações menos demissões) dever ser de -1,6% no País, enquanto a média da OCDE deve observar incremento de 1,5%, sendo que apenas quatro outros espaços contabilizarão saldos negativos entre -0,1%, como a Finlândia e -0,9%, Costa Rica.

A partir disso, a confiança do consumidor brasileiro declinou de 105,2 pontos para 101 pontos, entre maio e junho de 2016, de acordo com a CNI. Mesmo situando-se abaixo da média histórica (109,1 pontos), a graduação é bastante superior à constatada no mesmo mês de 2015 (96,2 pontos).

Na mesma linha, simulações da FGV revelam decréscimo próximo de 10% da renda per capita do brasileiro, entre 2014 e 2016, o segundo maior em 116 anos, superado apenas pelo declínio de quase 12%, verificado entre 1981 e 1983, quando o País acusou forte contração na absorção doméstica em favor do esforço exportador para o pagamento dos encargos da dívida externa, acumulada com a captação dos petrodólares para a cobertura financeira dos projetos estruturantes do II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), implantando pelo presidente Geisel, na segunda metade dos anos 1970.

Gilmar Mendes Lourenço, Economista, Consultor, Professor da FAE, Ex-Diretor-Presidente do IPARDES.

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