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Traços da Reversão da Curva de Desconfiança

Econ. Gilmar Mendes Lourenço

Alguns indicadores de natureza qualitativa, obtidos de inquéritos realizados por entidades de classe, denotaram, em maio de 2016,moderados sinais de inversão da marcha de insegurança, manifestados por empresas e famílias brasileiras que foram, ou vem sendo, castigadas pela instabilidade econômica e política que atinge o País, preponderantemente desde o ano de 2014.

De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o índice de confiança do empresário industrial (ICEI) registrou 43,0 pontos em maio, representando o maior patamar em dezesseis meses, contra 36,8 pontos, em abril,e 38,6 pontos, no mesmo mês de 2015. Ainda assim, o resultado (que pode variar entre zero e 100 pontos, sinalizando otimismo quando supera a marca de 50 pontos), situou-se abaixo da média de 54,3 pontos da série histórica acompanhada desde janeiro de 2012.

Ao mesmo tempo, pela ótica das famílias, outra pesquisa da CNI demonstra que o índice nacional de expectativa do consumidor (INEC) acusou relevante avanço,subindo de 97,3 pontos, em abril, e 98,6 pontos, em maio de 2015, para 105,2 pontos, em maio de 2016, versus média histórica de 109,2 pontos. O parâmetro varia entre 0 (zero) e 200 pontos, ocupando uma espécie de zona de esperança sempre que supera 100 pontos.

Sem dúvida, trata-se de aferições que expressam o começo da recuperação do ânimo dos agentes sociais (empresários e consumidores), apoiado no afastamento da ex-presidente da república, com a instauração do impeachment pelo senado, e na explicitação das diretrizes econômicas do governo em exercício, focadas na necessidade de perseguição derealismo fiscal, condição essencial para o reequilíbrio das contas públicas, a redução estrutural dos juros e a retomada do crescimento econômico em bases sólidas.

No entanto, é prudente entender que o delineamento de um ambiente de inversão das expectativas negativas tem sido fortemente influenciado pelo desejo coletivo de escape da conjuntura desesperadora vivida pela nação, herdada da ausência de uma orientação macroeconômica consistente, desde o final de 2008, quando o executivo federal optou pela aplicação de regras de cunho populista e intervencionista, avessas à responsabilidade fiscal e generosas na utilização político-partidária das corporações estatais e dos orçamentos públicos.

Na verdade, nota-se ainda um apreciável hiato temporal entre a generalizada vontade de restauração de padrões de expansão econômica, combinando aprofundamento da inclusão social com modernização produtiva e inserção internacional competitiva, e a produção de condições objetivas para a superação do cenário adverso, enfrentado pelas corporações e famílias, na direção do reerguimento dos níveis de atividade, renda e emprego.

Até porque, basta um breve exame das variáveis correntes para constatar a intensificação do clima de terra arrasada. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a falta de ocupação alcançou 11,4 milhões de pessoas, no trimestre compreendido entre fevereiro e abril de 2016, o que equivale a 11,2% da população economicamente ativa (PEA).A CNI também apurou a consolidação da trajetória recessiva do parque de transformação operante no País, evidenciada pela décima sexta redução mensal do contingente empregado no setor.

Na mesma linha, levantamento preparado pela Confederação Nacional do Comércio (CNC) atesta substancial agravamento das condições de endividamento e inadimplência dos consumidores.Mesmo com recuo da proporção de famílias endividadas (58,7% do total, em maio de 2016, ante 59,6%, em abril, e 62,4%, em maio de 2015), a fatia com contas em atraso subiu de 21,1% para 23,7%, em um ano, e, os que declaram não ter possibilidades de quitação dos débitos, passaram de 7,4% para 9,0% da população, no período em tela.

Não por acaso, as cadernetas de poupança, a mais tradicional modalidade de aplicação financeira do País, experimentou evasão (volume de retiradas menos depósitos) líquida de R$ 38,88 bilhões, entre janeiro e maio de 2016, consubstanciando perdas recordes e superando em mais de 20%, a saída líquida de recursos verificada em idêntico período de 2015, quando somou R$ 32,28 bilhões.

A produção de automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus decresceu -24,3%, no intervalo de tempo compreendido entre janeiro e maio de 2016, em comparação com os primeiros cinco meses de 2015, sendo que o volume de 175,3 mil unidades, produzido em maio, foi o pior para o mês desde 2004.

A intenção de consumo das famílias (ICF), igualmente medida pela CNC, declinou para 69,9 pontos (oscila entre zero e duzentos), em maio de 2016, o menor nível da trajetória de aferições, efetuadas desde 2010, contra 73,2 pontos, em abril, e 96,4 pontos, em igual mês de 2015, traduzindo a penúria presente e prospectiva mercado de trabalho (emprego e rendimentos).

Nesse contexto, parece absolutamente precipitada a ideia de que a sociedade nacional estaria em franca edificação da obra de reconstrução da dinâmica acelerada dos negócios. Embora altamente desejável, a concretização desse empreendimento depende da evolução do ciclo político, ainda obscurecida pelas incertezas quanto ao timing, e à própria definição, do desfecho do processo de impedimento, e às contradições expostas pelo comando institucional interino, extremamente subordinado às demandas legislativas e/ou corporativas, pouco sensíveis às exigências de austeridade fiscal.

Gilmar Mendes Lourenço, Economista, Consultor, Professor da FAE Business School, Ex-Presidente do IPARDES.

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