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Investir na demanda reprimida é o caminho para retomada forte da economia

Investimento em infraestrutura levará a uma retomada da economia, muito mais do que o consumo. Afirmação é de Gesner de Oliveira, um dos palestrantes do 22º ENESUL, realizado em conjunto pelos Conselhos Regionais de Economia do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Não haverá crescimento significativo da economia nos próximos anos, tampouco aumento considerável do consumo, se não for feito investimento rápido e forte na demanda reprimida do Brasil, ou seja, no setor de Infraestrutura. “Se esse investimento ocorrer, com participação do setor privado, temos um caminho para sair dessa situação de crise e crescer, do contrário, os números apontam para uma economia de lenta recuperação”, ressaltou o Ph.D em Economia, Gesner de Oliveira, professor do Departamento de Planejamento e Análise Econômica Aplicados à Administração – PAE-EAESP/FGV, em sua palestra durante a 22ª edição do Encontro dos Economistas da Região Sul (ENESUL). O evento que aconteceu em Curitiba, nos dias 28 e 29 de julho, na FAE Business School, foi realizado em conjunto pelos Conselhos Regionais de Economia do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Diante da apresentação de dados, considerações, projeções e comparações de cenários para a economia brasileira, Gesner esclareceu que apesar de estarmos num processo onde os indicadores de curto prazo melhoraram sensivelmente e que o patamar de confiança é superior ao vivido nos piores momentos da crise, entre 2015 e 2016, teremos algo diametralmente oposto à crise de 2009, quando houve uma rápida recuperação da economia.

“A crise de 2015/2016 foi a mais profunda e mais severa da história do país.  Tivemos a maior queda do PIB Per Capita, superior a 10%. Nós caímos mais e por isso a recuperação também é mais lenta do que em outras crises, como a de 1929, da década de 1980, ou de 2009, quando praticamente não sentimos o seu efeito. Em 2010 crescemos mais de 7%. Foi uma recuperação muito baseada no boom do consumo”, lembra ele.

Segundo o economista, mesmo em um cenário como o de hoje, com redução da taxa Selic, inflação baixando, uma Safra de Grãos recorde, e a Indústria apresentando sinais de estabilização, com uma retomada que deve ser liderada por produção de Bens de Capital e de Consumo Duráveis, o consumo não vai crescer porque a renda caiu muito. Ele também ressalta que a taxa de desemprego deve voltar para apenas um digito somente na próxima década e que há uma limitação de expansão do crédito por causa da inadimplência.

“Além disso, temos que rezar para que os gastos do Governo não evoluam pois eles aumentaram sistematicamente nos últimos anos e de forma insustentável. Segundo Gesner, indicadores de curto prazo revelam um comportamento da economia melhor, vislumbrando alguma saída, para uma lógica na Política Econômica. “Isso foi algo bastante positivo, mas, é claro que a economia real não recuperou, e estamos numa situação bastante dramática no ponto de vista de desemprego.”

Diante de todo esse cenário fazer só ajustes fiscais não é suficiente esclarece ele. “O Governo precisa adotar estratégias de investimento no setor de infraestrutura, que é a demanda reprimida do Brasil, com a participação da instituição privada. “Se conseguirmos formatar programas que levem investimento para esse setor a economia se recupera e teremos um impacto social fantástico”, ressalta Gesner, informando que já teve a oportunidade de conhecer diversos fundos nacionais e internacionais interessados nesse tipo de negócio.

O Brasil investe hoje um pouco mais de 2% em infraestrutura contra mais de 4% da Índia, e mais de 8% da China. “Investimos muito aquém da média mundial”, disse ao fazer uma breve demonstração de resultados com valores já aplicados no setor.

O investimento de R$ 6,3 bi em Rodovias, R$ 17,15 bi em Ferrovias, R$ 8,4 bi em Aeroportos, R$ 1 bi em Portos, R$ 25,8 bi em Saneamento e R$ 8,3 bi em Energia geraram R$ 187 bilhões para o PIB, 2,7 milhões de empregos, 19,4 bilhões de arrecadação, 28,7 bilhões em salários.  “É um milagre na multiplicação dos peixes, um impacto forte. O investimento em infra tem o condão de levar a uma retomada forte da economia, muito mais do que o consumo.”

Taxas assombrosas

Os setores que mais sofreram na crise foram os de Bens de Capital e de Consumo Duráveis, com redução de quase 40%, entre 2014 e 2016. “São taxas assombrosas. Daqui a 20 ou 30 anos as pessoas vão olhar para esse período, e ele vai chamar a atenção para a profundidade da crise que, espero, tenhamos passado.”

O economista também explicou que essa crise foi profunda “porque todo mundo estava excessivamente alavancado. Tanto o setor público quanto as famílias e as empresas estavam endividados demais. “E quando você tem que corrigir excesso de alavancagem e todos precisam fazer isso ao mesmo tempo ocorre uma crise profunda, porque o efeito sobre o fluxo é muito forte. Tem que corrigir os estoques, mas felizmente estamos vendo um declínio do endividamento das famílias e do comprometimento de renda”, diz.

“Já as contas públicas, infelizmente, têm um rombo enorme, sem contar com juros, superior a 2% do PIB (R$ 139 bi). E quando projetamos um fechamento do rombo vamos para algo em torno de 2021. Mas, isso sob a hipótese de reformar a previdência. Senão reformar pode transladar vários anos à frente.”

Deslocamento da Economia e da Política

“Muita gente fala, ‘a Economia descolou da Política’. Eu acredito que não. São absolutamente integradas. Agora, de fato os indicadores de curto prazo, nas circunstâncias mundiais e do Brasil, fazem com que haja uma certa separação, ou seja, que esses indicadores estejam relativamente bem comportados a despeito da gravidade da crise política, mesmo em uma semana anterior à decisão da Câmara para abertura ou não de um processo de denúncia contra o presidente da República.”

Por outro lado, segundo Gesner, supondo que haja um processo longo do Congresso em função da denúncia contra o presidente Michel Temer, e que ocorram eleições diretas no próximo ano, essa demora teria um custo econômico muito elevado. “O fato dos indicadores de curto prazo estarem relativamente bem comportados não significa que uma grande incerteza na esfera política não possa gerar efeitos econômicos negativos grandes também”, acrescentou.

“Em grande medida, o investimento não aumenta de uma forma mais significativa, porque ainda pairam muitas dúvidas sobre o que irá acontecer e como vai ser o final de 2017/2018 e o processo eleitoral seguinte.”

Diversos Cenários

Gesner citou outros cenários que podem abalar a confiança no mercado brasileiro e interferir negativamente nas expectativas:  uma indicação de que o processo de reformas teria paralisia total; um Governo Temer muito impopular e atacado, fragilizado, que muda completamente a Política Econômica para uma linha mais populista; um cenário em que o Governo não altere o rumo da Política Econômica mas as plataformas que serão submetidas ao eleitorado em 2018.

Região Sul apresenta cenário mais favorável que a média brasileira

Tanto Gesner de Oliveira, quanto o economista Luiz Vamberto de Santana, da Fecomércio, ressaltaram que a região Sul vem apresentando um cenário um pouco mais favorável em relação à média do Brasil. A produção industrial cresceu 3% enquanto a média nacional é de 0,5%. O varejo também mostra recuperação mais consistente e a situação do mercado de trabalho é menos dramática. A taxa de desemprego na região Sul é de 9%, enquanto no Brasil é de 13,7%. Na região Nordeste sobe para 16,3%. Foram criados mais de 46 mil empregos formais na região Sul no 1⁰ semestre de 2017. Segundo eles, a estrutura econômica do estado, com maior peso da agricultura e da indústria de transformação, ajuda a explicar esse cenário.

A presidente do CORECONPR, economista Maria de Fátima enalteceu os temas abordados em todas as palestras do 22º ENESUL, destinado a economistas, estudantes e população em geral. Neste ano, o evento teve como tema principal “As perspectivas da economia brasileira sob a ótica da região Sul”. Durante o evento, o Conselho Regional de Minas Gerais também aproveitou para convidar a todos para a próxima edição do Congresso Brasileiro de Economia (CBE), que será realizado em setembro, na cidade de Belo Horizonte, em Minas Gerais.

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