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A Deterioração do Varejo Brasileiro

Econ. Gilmar Mendes Lourenço

A forte contração do volume de vendas do comércio varejista brasileiro, no primeiro quadrimestre de 2016, estimada em -9,3%, em relação ao mesmo período de 2015, pela Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), constitui o sinal mais expressivo da profundidade da recessão econômica que atinge o País desde o começo de 2014.

A despeito do caráter generalizado do panorama negativo, os decréscimos mais acentuados ocorreram nos ramos de eletrodomésticos (-16,7%), equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação (-16,2%), livros, jornais, revistas e papelaria (-15,5%), materiais de construção (-14,3%), veículos e motos, partes e peças (-13,6%), móveis (-12,7%), e tecidos, vestuário e calçados e outros artigos de uso pessoal e doméstico (-12,2%).

Desta feita, em vez do surrado argumento da instabilidade internacional, identificam-se culpados domésticos para o contínuo e acentuado recuo registrado pelos ramos econômicos mais leves, subordinados a fatores objetivos, como massa de rendimentos e volume e condições de crédito, disponibilizado às famílias, ao lado de elementos ligados às expectativas dos agentes.

As raízes da rota cadente experimentada pelo varejo repousam na condução macroeconômica equivocada, praticada pelas autoridades de Brasília, a partir do final de 2008, centrada no menosprezo a premência de elevação dos investimentos em aumento da capacidade produtiva industrial e eficiência infraestrutural ena priorização da ampliação dos dispêndios de consumo das famílias, baseada em majoração das remunerações reais acima da produtividade média da mão de obra e abundância e alongamento do crédito (ancorado na atuação dos bancos públicos), e do governo, via incremento das transferências diretas de renda, especialmente o programa bolsa família e a valorização do salário mínimo, e renúncias tributárias.

Porém, aquelas fontes, consideradas equivocadamente inesgotáveis pelos governantes, secaram. De um extremo, emergiu a falência do Estado, induzida pelo rompimento oficial com os princípios da responsabilidade fiscal e o aparelhamento partidário das companhias estatais e dos ministérios, que foram transformados em verdadeiros balcões de negócios, voltados ao atendimento de interesses escusos, envolvendo membros do executivo e legislativo, além de grandes empreiteiras de obras públicas.

De outro ângulo, as trincheiras vinculadas aos salários foram fragilizadas pelo cenário de depressão econômica, evidenciado pela impulsão da desocupação e recuo dos rendimentos médios, determinado também pela escalada da inflação.Conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, do IBGE, a taxa de desemprego chegou a 11,2% da população economicamente ativa (PEA), no trimestre findo em abril de 2016, o equivale a 11,4 milhões de pessoas sem trabalho procurando ocupação, ou acréscimo de 3,4 milhões em um ano.

A mesma PNAD revela que a remuneração real (descontada a variação média anual do nível geral de preços superior a 9%) do contingente ocupado foi de R$ 1.962, entre fevereiro e abril de 2016, configurando retração de -3,3%, quando confrontada com igual intervalo de 2015.

De seu turno, com a contração dos níveis de oferta e demanda agregada e solvência e confiança privada (empresas e consumidores), as operações de crédito tornaram-se mais seletivas e caras. De acordo com o Banco Central do Brasil (BC),as taxas médias de juros cobradas pelas instituições financeiras de pessoas físicas, nas modalidades cheque especial e rotativo do cartão de crédito, atingiram recordes de 308,7% a.a. e 448,6%, respectivamente, em abril de 2016, com inadimplência de 14,4% e 36,4%.

Nessas circunstâncias, levantamento preparado pela Confederação Nacional do Comércio revelou que, em maio de 2016, quase 24% das famílias brasileiras estavam com o pagamento de contas em atraso (sendo que, para 64% desse universo, a inadimplência é superior a dois meses) e 9% não tinham a menor ideia de como regularizar a situação. Os redutos familiares ainda comprometem 43,6% dos fluxos de renda anuais com o pagamento de prestações, segundo inferências do BC. Logo, não surpreende o fato de a intenção de consumo das famílias (ICF), mensurada por investigação da CNC, situar-se no piso da série histórica iniciada em 2010.

Por essa ordem de observação, parece razoável supor que uma drástica reversão do sentimento desfavorável dos entes envolvidos com o varejo brasileiro, na direção do reaquecimento dos patamares de atividade, exige a queima de apreciável quantidade de lenha de qualidade no fogo da lareira da política econômica. Embora relevante,o esboço de ajuste das contas públicas revela-se insuficiente para a restauração do estado de ânimo dos atores sociais, se não vier acompanhado da negociação política de um conjunto de reformas institucionais capazes de provocar redução estrutural dos custos e impulsão da produtividade da micro e macroeconomia da nação.

Gilmar Mendes Lourenço, Economista, Consultor, Professor da FAE Business School, Ex-Presidente do IPARDES.

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